42
Aos 42 anos, reflito sobre minha jornada: fracassos empresariais que se tornaram escolas, família como meu maior projeto, a filosofia estoica como bússola e a saúde reconquistada. Aprendi que não são as respostas, mas as perguntas certas que transformam.
Hoje completo 42 anos. Um número que, como fã de ficção científica e livros que sou, não posso deixar de associar à famosa "resposta para a vida, o universo e tudo mais". E pensando bem, talvez seja apropriado - não porque tenho todas as respostas, mas porque aprendi que são as perguntas certas que moldam nossas escolhas e nosso crescimento.
Nascer no dia 1º de abril sempre trouxe uma dualidade interessante à minha vida. Dizem ser o dia da mentira, mas para mim, tornou-se um lembrete anual de que nem tudo é o que parece à primeira vista e que o humor é essencial para navegar pelas contradições da vida. Talvez isso explique minha capacidade de rir dos próprios fracassos e enxergar oportunidades onde outros veem apenas obstáculos.
Sentado no meu escritório enquanto Mariana, Lucas e Amanda ainda dormem, aproveito o silêncio para refletir sobre o caminho que percorri até aqui e vou compartilhar algumas lições que o tempo me ensinou.
Empreendedorismo: a arte de falhar produtivamente
Quando abri minha primeira empresa ainda jovem, achava que tinha tudo planejado. Seis meses depois, enfrentava meu primeiro grande fracasso. O plano que imaginei mal saiu do papel e o dinheiro evaporou mais rápido que orvalho no asfalto.
Hoje entendo que aquele "fracasso" foi minha melhor escola. Como diria Sêneca, "nenhum vento sopra a favor de quem não sabe para onde vai". Meu problema não era falta de habilidade técnica, mas de visão estratégica e, principalmente, de humildade para ouvir.
Três empresas depois (duas falidas, uma vendida com lucro moderado), posso dizer que aprendi a amar o processo mais que o resultado. Minha atual visão de negócios está bem mais madura, não porque parei de cometer erros, mas aprendi a transformá-los em degraus e vou seguindo.
Família: meu maior empreendimento
Empreender um negócio é desafiador, mas construir uma família saudável exige um tipo diferente de liderança - uma que não pode ser delegada ou terceirizada. Aprendi que minha presença vale mais que qualquer presente, e que cinco minutos de atenção genuína valem mais que horas de presença distraída.
Ser pai e marido me ensinou uma forma de paciência e compromisso que nenhum MBA poderia oferecer. É um trabalho diário de autoconhecimento e generosidade, onde pequenas consistências importam mais que grandes gestos ocasionais.
Hoje, vejo que meu maior investimento não está nos ativos acumulados, mas nas memórias que cultivamos juntos. Meu verdadeiro legado caminha ao meu lado todos os dias, não em balanços financeiros ou conquistas profissionais.
Estoicismo: meu porto seguro nas tempestades
Descobri Marco Aurélio e Epíteto durante minha segunda falência. Em meio ao caos financeiro e à autoestima ferida, suas palavras ofereceram além de conforto, uma direção.
"Não são as coisas que nos perturbam, mas as opiniões que temos delas."
O estoicismo me ensinou a distinguir entre o que posso e o que não posso controlar. Não posso controlar a economia, as decisões dos clientes ou as tendências tecnológicas. Posso controlar minha reação a esses fatores, minha ética profissional e a qualidade do meu trabalho.
Esta filosofia me salvou do burnout que vinha se instalando silenciosamente. Parei de me culpar pelos fracassos e de me gabar pelos sucessos - ambos são temporários e raramente dependem inteiramente de nós.
Saúde: a infraestrutura negligenciada
Aos 33 anos, 40kg acima do peso e com os exames todos "cagados", recebi um ultimato médico que mudou minha vida. Tive que admitir que tratava meu corpo com menos cuidado que meus servidores - estes tinham backup, monitoramento constante e manutenção preventiva. Eu não.
A primeira mudança veio com a alimentação. Abandonei a dieta desregrada que havia normalizado: refeições em horários aleatórios, pratos desproporcionais e a combinação perigosa de minha paixão pela cerveja artesanal com petiscos calóricos. Como cervejeiro caseiro, eu havia transformado meu passatempo em desculpa para o consumo excessivo - testava minhas produções aos finais de semana e cada sessão de degustação vinha acompanhada de queijos, hambúrgueres, embutidos e frituras que eu justificava como "harmonização".
O conhecimento técnico sobre fermentação e ingredientes não se traduzia em sabedoria nutricional. Ironicamente, quanto mais refinado ficava meu paladar para detectar notas sutis em um Belgian Tripel ou IPA, menos atenção eu dava ao impacto que aquelas calorias líquidas tinham sobre meu corpo. Meu fígado, sobrecarregado, enviava sinais claros que eu teimosamente ignorava.
Comecei a correr por necessidade, continuei por disciplina e hoje corro por prazer. Minha primeira corrida de 5km foi um desastre - terminei ofegante, com dores por dias. No ano passado, completei minha sexta meia maratona. Não estabeleci nenhum recorde, mas venci meu eu de anos atrás.
Não abandonei a cerveja artesanal, mas mudei minha relação com ela. De consumidor frequente a apreciador ocasional, aprendi que uma única taça bem degustada traz mais satisfação que várias consumidas distraidamente. Estabeleci limites claros - degustações apenas em quantidades moderadas, sempre acompanhadas de água e precedidas por uma refeição equilibrada.
O emagrecimento veio como consequência natural, não como objetivo primário. Desenvolvi uma nova relação com a comida - de fonte de conforto imediato para combustível de longo prazo. Redescobri o prazer dos alimentos não processados e aprendi que disciplina alimentar não significa privação, mas escolhas conscientes.
Aprendi que saúde é investimento de longo prazo, não projeto de curto prazo. Hoje, meu conhecimento sobre fermentação e ingredientes encontrou um novo propósito - não apenas para criar receitas complexas, mas para entender melhor o impacto dos alimentos no meu organismo e fazer escolhas que sustentam minha vitalidade, não apenas meu paladar momentâneo.
Motocicletas: liberdade programada
Desde os vinte anos, as motocicletas são mais que um meio de transporte para mim - são uma filosofia de vida. Não me lembro de um período em que fiquei sem uma. Foram vários modelos, diversos tamanhos, marcas e cores, cada um com sua personalidade e história.
A viagem para Ushuaia com minha BMW GS1200 transformou minha perspectiva sobre distância e tempo. Atravessar o Sul da América do Sul enfrentando climas extremos e paisagens deslumbrantes, me conectou com uma parte de mim que o dia a dia corporativo muitas vezes sufoca. O ronco do motor, o vento no capacete e a estrada aberta têm um efeito meditativo que nenhuma sessão de mindfulness consegue replicar.
Nas longas viagens, aprendi que o verdadeiro prazer está na jornada — nos erros de rota, nas conversas em postos de gasolina no meio do nada e nos imprevistos. Cada parada inesperada, cada conversa com pessoas em locais remotos e cada curva desafiadora me ensinaram mais sobre adaptabilidade e presença que muitos livros. As motos me lembram constantemente que liberdade requer responsabilidade, e que os melhores momentos da vida frequentemente acontecem fora da zona de conforto.
Meditação: o software antivírus da mente
A meditação entrou na minha vida com as corridas, quase como um complemento técnico. Para uma mente hiperativa como a minha, acostumada ao multitasking constante, sentar em silêncio parecia tortura.
Comecei com sessões de cinco minutos - que pareciam eternos. Hoje, 20 minutos de meditação matinal são tão essenciais quanto meu café. Percebo que minha produtividade não aumentou necessariamente, mas minha clareza mental sim. Tomo decisões melhores, reajo menos impulsivamente e me tornei mais presente mesmo quando estou fisicamente exausto.
Curiosamente, encontrei um tipo diferente de meditação na estrada. O motociclismo, além de representar liberdade, tornou-se uma prática meditativa em movimento. A vibração do motor, a pressão dentro do capacete isolando o mundo e a atenção plena em cada curva me colocam no presente, trazendo um silêncio paradoxal mesmo com o vento rugindo. Seja parado ou acelerando, percebi que tanto a meditação quanto a estrada ensinam a mesma lição: desacelerar não é perder tempo, é ganhar perspectiva.
Tecnologia: paixão que evolui
Minha relação com a tecnologia evoluiu como um relacionamento maduro. Na adolescência, era fascínio puro pelas possibilidades - desmontar computadores, programar noites inteiras e consumir cada novidade tecnológica com entusiasmo quase religioso. Na juventude, transformou-se em ferramenta profissional, meio de sustento e fonte de identidade.
Hoje, aos 42, busco uma parceria mais equilibrada e consciente. Reconheço seu poder transformador sem me tornar refém de notificações, atualizações constantes ou da pressão para estar sempre conectado. Aprendi a criar rituais de desconexão digital - finais de semana com o celular guardado, jantares sem dispositivos à mesa e manhãs dedicadas à leitura em papel.
A tecnologia permanece central na minha vida profissional e pessoal, mas agora sou eu quem define os termos dessa relação. Uso-a para amplificar capacidades humanas - criatividade, conexão, aprendizado - sem permitir que substitua experiências essenciais. O melhor aplicativo jamais substituirá uma conversa profunda, assim como a mais sofisticada realidade virtual não captura a sensação de uma trilha real na natureza.
Esta relação mais madura me permite aproveitar o melhor dos dois mundos: a eficiência e alcance que a tecnologia proporciona, com a profundidade e autenticidade que apenas experiências totalmente humanas podem oferecer.
Aos 42: perguntas melhores
Se estes anos me ensinaram algo, é que as melhores respostas vêm de perguntas melhores.
Não "como ganhar mais?", mas "quanto é suficiente?".
Não "como ser mais produtivo?", mas "em que vale a pena investir meu tempo?".
Não "como posso escalar meu negócio mais rápido?", mas "este crescimento trará realização ou apenas mais responsabilidades?".
Não "como posso fazer mais em menos tempo?", mas "quais atividades realmente merecem meu tempo e energia limitados?".
Não "o que os outros esperam de mim?", mas "o que realmente acrescenta significado à minha vida?".
Não "como posso me destacar da multidão?", mas "como posso contribuir genuinamente com meus talentos únicos?".
Não "como acumular mais?", mas "o que posso simplificar ou eliminar para criar espaço mental?".
Com sorte, tenho pelo menos mais 42 anos pela frente. E não quero apenas vivê-los - quero habitá-los plenamente, com a sabedoria suada destes primeiros 42.
O tempo vai passar de qualquer jeito. A questão é: você vai simplesmente deixá-lo passar ou vai transformá-lo em algo significativo?
Convido você a fazer um exercício: reserve 42 minutos hoje - sem telefone, sem distrações - e escreva suas próprias perguntas transformadoras. Depois, compartilhe nos comentários a pergunta que mais ressoou com você. Vamos construir juntos um repertório de questões que realmente importam.
Afinal, aos 42 ou em qualquer idade, não são as respostas prontas que nos transformam, mas as perguntas corajosas que ousamos fazer. E você, que pergunta vai guiar sua jornada a partir de hoje?