O defeito que sustenta
Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Meu amigo foi se trabalhando, ficando mais sério, mais correto. Operou o que achava ser um defeito. Só percebeu que era fundação quando o teto rachou.
Continuando minha reflexão do texto O que fica ruim quando você fica bom?, tem uma frase da Clarice Lispector, retirada de um trecho de uma carta enviada a Tânia Kaufmann em 6 de janeiro de 1948 que diz assim:
"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro" - Clarice Lispector
Ela sugere nossos "defeitos" podem ser bases da nossa identidade.
Pensei nisso quando um amigo me disse que vinha se sentindo sobrecarregado, cansado e muito só. Perguntei se ele não deveria dar uma descansada do trabalho e ele me confessou que, depois de muito pensar, tinha chegado a uma conclusão estranha: tinha parado de ser engraçado.
Quis entender como, e ele me disse que não foi de repente, foi gradual. Ele foi se trabalhando, ficando mais sério, mais correto. E um dia as pessoas ao redor estavam diferentes, sentia-as mais distantes. Ou ele é que estava.
Ele achava que o humor era o defeito dele. Irritava o chefe, constrangia em reunião, a ex chamava de imaturidade. Então ele operou. Ficou melhor.
Só que junto com o humor foi embora a leveza. A forma que ele tinha de fazer as pessoas respirarem diferente quando ele entrava. Ele não perdeu um defeito. Perdeu uma fundação, e não sabia que era fundação até o teto rachar.
Você não se conhece tão bem quanto pensa. O mapa que você tem de si mesmo tem zonas em branco.
E a cirurgia que parece estética às vezes é estrutural.
O que você já cortou de si mesmo achando que era defeito?