O que fica ruim quando você fica bom?

O que fica ruim quando você fica bom? Sobre tolerar relações, trabalhos e rotinas disfuncionais porque ainda entregam resultado. Melhor o absurdo útil que a sanidade inconveniente.

O que fica ruim quando você fica bom?
Photo by Towfiqu barbhuiya / Unsplash
Um sujeito chega no psiquiatra e diz:
Dr., minha esposa pensa que é uma máquina de lavar! O que devo fazer?
O Dr. responde: traga-a aqui!
Depois de examiná-la, conclui: “é caso de internação!”, eis que o rapaz responde: “Mas Dr., preciso de roupas limpas!”

Essa pequena anedota, apesar de engraçada, traz um conceito que chama atenção: o que fica ruim quando você fica bom?

Enquanto a esposa “funciona” como máquina de lavar, tudo parece em ordem. Há roupas limpas, rotina previsível e uma estranha sensação de normalidade. O problema só aparece quando alguém aponta o óbvio: aquilo não é normal. A cura, nesse caso, ameaça o conforto. Melhor conviver com o absurdo útil do que com a sanidade inconveniente.

E é aqui que a piada deixa de ser piada.

Quantas vezes toleramos relações disfuncionais, trabalhos tóxicos, rotinas exaustivas ou crenças claramente quebradas porque, de algum modo torto, elas ainda entregam resultado? Pagam as contas. Mantêm a imagem ou evitam o conflito. O sistema é ruim, mas funciona. E mexer nele custa caro.

A melhora quase sempre vem acompanhada de perdas colaterais. Quando você começa a se cuidar, pode perder companhia. Ao amadurecer, você perde ilusões. Quando coloca limites, perde seus privilégios e os dos outros. Crescer é, muitas vezes, desmontar máquinas que davam conta do serviço, ainda que à base de desgaste, silêncio e negação.

No fundo, a pergunta correta não é “isso funciona?”, mas “a que preço?”. Porque há coisas que só parecem boas enquanto ninguém ousa chamá-las pelo nome. E há sistemas pessoais, profissionais ou sociais, que preferem manter alguém quebrado, desde que continue girando o tambor.

Afinal, roupas limpas são importantes, mas talvez não mais do que gente inteira. Deixa eu te fazer a pergunta que ninguém quer responder: o que na sua vida só funciona porque você aceita ficar disfuncional? E outra ainda pior: você realmente acredita que não tem escolha, ou só está com medo do que vem depois?

Respire fundo e seja honesto: onde na sua vida você virou a máquina de lavar de alguém ou transformou alguém na sua?