Pluribus e os dilemas da sociedade conectada

Pluribus usa a ficção científica para expor dilemas que já vivemos: privacidade, memória, identidade e consentimento. Mais do que um futuro possível, a série revela um presente inquietante — onde conexão demais pode significar liberdade de menos.

Pluribus e os dilemas da sociedade conectada
Propaganda da Série Pluribus na AppleTV+

Nesta semana, terminei a primeira temporada de Pluribus, série da Apple TV+ que imagina um mundo onde mentes humanas são conectadas em uma rede coletiva, trocando pensamentos, memórias e experiências sem mediação, sem silêncio e principalmente, sem escolha real. Vendida como ficção científica, a série funciona melhor como alerta e talvez como diagnóstico.

O que Pluribus coloca em cena não é um salto tecnológico improvável, mas a consequência lógica de tendências que já aceitamos com entusiasmo: a dissolução da privacidade, a gamificação da identidade, a terceirização da memória e a crença quase religiosa de que mais conexão significa, automaticamente, mais humanidade.

Aproveitando o ócio das férias, esse raro espaço onde ainda é possível pensar sem notificações, quero usar a série como provocação para discutir até que ponto estamos construindo ferramentas para ampliar a consciência coletiva… ou apenas sistemas mais eficientes de controle, conformidade e diluição do indivíduo.

Privacidade de dados

Na série, a conexão neural elimina completamente a fronteira entre o privado e o público. Cada pensamento, cada memória pode ser acessada por todas as pessoas. Isso nos obriga a admitir que esse "pesadelo" já está em construção.

Hoje, nossas pegadas digitais revelam mais sobre nós do que imaginamos. Cada clique, cada busca, cada interação online constrói um perfil detalhado de quem somos, o que pensamos, o que desejamos. A diferença entre a ficção da série e nossa realidade é apenas de grau, não de natureza. As empresas de tecnologia já sabem prever nossos comportamentos, influenciar nossas decisões e mapear nossas intimidades.

A série nos força a perguntar: onde traçamos a linha? Se hoje cedemos voluntariamente nossos dados em troca de conveniência, estaríamos dispostos a ceder também nossos pensamentos em troca de uma conexão mais profunda?

Direito ao esquecimento

Um dos aspectos mais perturbadores de Pluribus a permanência absoluta das memórias. Erros do passado, momentos de vergonha, versões antigas de nós mesmos ficam eternamente acessíveis. Não há como apagar, não há como esquecer, não há como recomeçar. Isso ressoa profundamente com os debates atuais sobre o direito ao esquecimento.

Na era digital, nossa história está permanentemente arquivada em servidores ao redor do mundo. Aquela foto constrangedora de dez anos atrás, aquele comentário impulsivo, aquela opinião que já não defendemos mais - tudo permanece, assombrando nosso presente e hipotecando nosso futuro.

A série dramatiza uma questão filosófica essencial: o esquecimento é um direito humano fundamental? A capacidade de reinventar-se, de deixar o passado para trás, de ser perdoado por nossos erros. Tudo isso depende da possibilidade de que certas coisas sejam, eventualmente, esquecidas. Sem esquecimento, não há reinvenção, apenas repetição.

Compartilhamento de conhecimento

Utopia ou Distopia? À primeira vista, a promessa de Pluribus é sedutora, conhecimento instantâneo e universal. Imagine aprender um idioma em segundos, dominar uma habilidade complexa apenas conectando-se a alguém que já a possui. É o sonho iluminista da democratização total do conhecimento.

Mas a série nos mostra o lado sombrio dessa utopia. Quando todo conhecimento está disponível para todos, qual o valor do esforço individual? Da jornada de aprendizado? Das descobertas pessoais?

Vivemos uma versão incipiente desse dilema. A internet colocou quase todo o conhecimento humano a alguns cliques de distância, mas isso nos tornou mais sábios? Ou apenas mais dependentes?

Terceirizamos nossa memória para algoritmos, nossa capacidade de cálculo para calculadoras, nossa orientação para GPS. A questão que Pluribus levanta é: existe um ponto em que o compartilhamento de conhecimento deixa de nos empoderar e passa a nos diminuir, nos tornando usuários eficientes, mas pensadores preguiçosos.

Individualidade vs. coletivismo

Talvez o tema mais profundo da série seja a tensão entre o eu e o nós. Na rede Pluribus, onde termina um indivíduo e onde começa o coletivo? Se compartilhamos todos os pensamentos, todas as experiências, ainda podemos falar em identidade individual?

Essa questão filosófica tem implicações práticas urgentes. Nas redes sociais, nossa identidade é cada vez mais construída coletivamente, moldada por curtidas, compartilhamentos, comentários. Pensamos com base em trending topics, sentimos através de emojis, existimos através de nossa presença digital validada pelos outros.

A série nos força a confrontar uma verdade desconfortável: já estamos, em certa medida, conectados em uma mente coletiva digital, fragmentada, reativa e profundamente mediada por algoritmos. Será que conseguimos manter nossa individualidade nesse processo? Ou estamos gradualmente nos dissolvendo em uma consciência coletiva algorítmica?

Poder de escolha vs. imposição

Na série, a conexão à rede é involuntária, com apenas alguns indivíduos não fazendo parte e esse é, talvez, o paralelo mais assustador com nossa realidade.

Formalmente, ninguém nos obriga a usar redes sociais, a carregar smartphones, a aceitar cookies. Mas, na prática? Tente manter amizades sem WhatsApp, participar de debates públicos sem Instagram, LinkedIn, Twitter, Facebook, TikTok, YouTube. A “escolha” de não participar é, cada vez mais, uma ilusão.

A série nos confronta com uma questão ética crucial: consentimento obtido via coerção social é realmente consentimento? Quando a alternativa à participação é o isolamento, ainda podemos falar em livre escolha?

O que Pluribus nos ensina sobre nós mesmos

O que me prendeu em Pluribus está no fato de não oferecer respostas fáceis. A série não condena nem celebra a tecnologia de conexão neural - ela simplesmente explora suas consequências, deixando o espectador inquieto e questionador.
E talvez seja exatamente isso que precisamos: não de soluções prontas, mas de perguntas incômodas. Porque enquanto debatemos a ficção da série, estamos, sem perceber, vivendo versões cada vez mais reais desses dilemas.

A questão que Pluribus nos deixa não é “isso poderia acontecer?”, mas “quanto disso já está acontecendo?”. E mais importante: “o que vamos fazer a respeito?”.

Porque ao contrário dos personagens da série, nós ainda temos tempo de escolher que tipo de futuro conectado queremos construir. Ou, no mínimo, de lutar para que essa escolha não nos seja retirada em silêncio.