Urgência de amar
O amor que nossos pais tinham pra nos dar era real. Mas tinha ritmo de sobrevivência. Com os netos, o tempo para. Não é arrependimento, é consciência. E quando ela chega, vem junto uma urgência que ninguém planeja.
Meus pais acabaram de completar 67 e 70 anos.
Eles não mudaram tanto assim. Mesma gente, mesma história, mesmos valores que carregaram a vida inteira. Mas tem uma coisa que mudou, e eu só consegui ver isso de fora, com um certo distanciamento que o tempo e a paternidade me deu.
Quando eu e meus irmãos éramos crianças, eles nos amavam, disso não tenho dúvida. Mas o amor deles tinha um ritmo. Um ritmo de adulto com conta para pagar, com prazo para cumprir, com energia que acabava antes da noite chegar. Qualquer coisa que quiséssemos esperava. Não por descaso, por sobrevivência. Eles estavam construindo um vida e construção não para para brincar.
Hoje, com os netos, a coisa é diferente.
O tempo para, literalmente. A Amanda aponta para algo na janela e meu pai para tudo que está fazendo para olhar junto. Minha mãe inventa história no meio da tarde de uma quinta-feira qualquer. Não tem pressa, não tem depois. Tem só aquele momento, entregue com uma generosidade que, honestamente, eu não lembro de ter visto quando era pequeno.
É tentador ler isso como arrependimento, mas não é bem isso.
É mais parecido com consciência. A consciência que só vem quando você já errou o suficiente para entender o que vale. Quando você percebe que o tempo não volta, não negocia e não aceita parcelamento. Eles amaram do jeito que podiam. Agora amam do jeito que sabem.
Existe um conceito que os gregos chamavam de kairos, o tempo certo, o momento oportuno, diferente do chronos, que é o tempo que o relógio marca. A infância dos netos coincidiu com o kairos dos avós. Uma espécie de alinhamento que ninguém planejou.
Não sei se isso é belo ou melancólico.
Provavelmente os dois. Como quase tudo que é verdadeiro.
E é exatamente por isso que a urgência aparece, não como ansiedade, mas como clareza. A percepção de que amar bem não é uma habilidade que se acumula. É uma escolha que se faz agora, com o que se tem, para quem está do lado.
Kairos não tem agenda. Não manda lembrete, não reagenda. O momento oportuno de amar bem é esse, não o de depois que as contas fecharem, não o do fim de semana, não o da próxima fase da vida.
É agora. Sempre foi.