Você não precisa de mais respostas. Precisa de perguntas melhores.

Nem sempre os maiores avanços vêm de aprender algo novo. Às vezes, vêm de enxergar o mesmo problema por outra perspectiva. Cinco modelos mentais que mudaram a forma como eu decido: sistemas, alavancagem, probabilidades, incentivos e assimetrias. E as cinco perguntas que vêm com eles.

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Você não precisa de mais respostas. Precisa de perguntas melhores.

Faz algumas semanas que não publico por aqui. Não foi falta de assunto nem de vontade. O encerramento do ano fiscal chegou e, para quem trabalha na área comercial, especialmente com tecnologia, essa época tem um ritmo próprio: reuniões, negociações, propostas, viagens, revisões… enfim, é paulera! Aliado a isso, ainda iniciei um MBA em Economia, Investimentos e Banking.

Apesar da correria, uma coisa interessante aconteceu. Entre uma reunião e outra, percebi que muitas das decisões que precisei tomar não dependiam de conhecer mais ferramentas, metodologias ou frameworks. Elas dependiam, principalmente, da forma como eu analisava cada situação.

Foi aí que alguns conceitos, estudados em momentos diferentes da minha carreira, começaram a se conectar como peças de um mesmo quebra-cabeça e resolvi falar um pouco sobre eles aqui.

Por exemplo: percebi que a forma como passei a organizar meu tempo e onde escolho investir minha energia costuma ter mais impacto nos meus resultados do que simplesmente trabalhar mais. Por isso, desenvolver um modelo mental sólido talvez seja uma das habilidades mais valiosas em um mundo cada vez mais complexo.

E tudo começa pela construção de um sistema pessoal, pois ele te poupa muita energia.

Sistema pessoal

Algumas pessoas podem chamar de manias, ou ainda, que isso é coisa para pessoas organizadas, mas acredite, eu não sou um exemplo de organização, pelo menos não do jeito tradicional. Para a construção de um sistema pessoal existem inúmeros métodos de produtividade, organização e gestão do tempo. Alguns defendem listas detalhadas, outros blocos de agenda ou a concentração em uma única prioridade. Todos possuem méritos, mas nenhum funciona igualmente bem para todas as pessoas. Você deve experimentar, adaptar e construir um sistema que respeite sua realidade. Afinal, sistemas existem para servir às pessoas, e não o contrário. Alguns exemplos de sistemas que funcionam para mim:

  1. Minha agenda no celular: se o evento não está lá eu não vou aparecer.
  2. Orçamento doméstico: passei a trabalhar com orçamento em vez de despesas há anos e isso fez uma diferença enorme na minha vida financeira.
  3. Álbum de fotos com notas fiscais e manuais de produtos: tudo que compro eu tiro foto da NF e do manual, e tenho um álbum no meu celular com isso, assim sempre que preciso eu tenho isso a uma busca de distância, e agora com IA, está muito mais fácil, antigamente eu achava pela data da compra.

Nenhum desses sistemas é sofisticado. O valor não está na ferramenta, está em não precisar decidir de novo toda vez.

Pergunte-se: qual é o sistema por trás desse problema?

Alavancagem

Quando esses sistemas começam a funcionar, surge uma pergunta inevitável: como fazer com que o esforço produza resultados além do tempo investido? É nesse momento que entra a alavancagem.

Pego emprestado aqui um termo que conheci há tempos no mercado financeiro: uma vez que temos processos bem definidos, habilidades desenvolvidas, conteúdos produzidos e ativos construídos, eles continuam gerando valor mesmo quando não estamos trabalhando diretamente neles.

Um exemplo prático da minha rotina: em vez de montar uma apresentação nova a cada conversa com cliente, passei a construir materiais reaproveitáveis (workshops, decks e roteiros de discussão) que funcionam em contextos diferentes. O trabalho pesado acontece uma vez e o retorno se repete em cada nova conversa. Esse próprio blog é um exemplo: escrevo uma vez, e o texto segue circulando e iniciando conversas sem que eu precise estar presente.

A diferença entre crescer de forma linear ou exponencial costuma estar justamente na capacidade de criar algo que continue produzindo depois que nosso trabalho terminou.

Pergunte-se: o que estou construindo hoje que continua trabalhando por mim amanhã?

Probabilidades, não certezas

Entretanto, mesmo com bons sistemas e mecanismos de alavancagem, nenhuma decisão oferece garantias. A vida raramente funciona no campo das certezas, ela opera no campo das probabilidades. Em vez de perguntar se uma ideia dará certo, faz mais sentido questionar o que pode aumentar as chances de sucesso. Aprender continuamente, acumular experiência, fazer mais tentativas, buscar diferentes perspectivas e permanecer tempo suficiente no jogo são formas de influenciar aquilo que realmente está sob nosso controle: as condições que tornam um bom resultado mais provável.

Isso muda inclusive a forma de avaliar o passado. Uma decisão pode ter sido boa e ainda assim dar errado. E uma decisão ruim pode dar certo por sorte. Julgar o processo, e não só o resultado, é o que permite melhorar de verdade.

Pergunte-se: o que aumenta minhas chances de sucesso aqui?

A teoria dos jogos

Essa visão também exige compreender que pessoas não agem isoladamente. Com frequência, os comportamentos são consequência dos incentivos presentes no ambiente. Aqui entra a teoria dos jogos.

A teoria dos jogos nos ensina que, antes de atribuir um resultado à disciplina ou à falta dela, vale perguntar o que está sendo recompensado. Muitas vezes, um sistema produz exatamente o comportamento para o qual foi desenhado, ainda que isso nunca tenha sido intencional. Alterar incentivos pode ser mais eficaz do que exigir mais esforço das pessoas.

Pergunte-se: que incentivos estão moldando esse comportamento?

Assimetrias

Por fim, existe um princípio que conecta todos os anteriores: a busca por assimetrias. Grandes oportunidades nem sempre exigem grandes apostas. Em diversas situações, o custo de tentar é pequeno, enquanto o potencial de retorno é enorme.

Publicar uma ideia, iniciar uma conversa, enviar uma proposta ou testar um projeto piloto são exemplos de decisões em que a perda é limitada, mas um único acerto pode transformar completamente a trajetória de alguém.

Vivi isso recentemente. Propus a um cliente um piloto pequeno, de escopo reduzido e baixo custo, num tema que ninguém tinha priorizado ainda. O custo de ouvir "não" era praticamente zero: algumas horas de preparação e uma reunião. O custo de nunca perguntar era perder uma conversa que acabou abrindo uma agenda inteira que não existia antes. Assimetrias raramente parecem óbvias antes de você tentar. Elas só parecem óbvias depois.

Quem aprende a identificar essas oportunidades passa a assumir riscos mais inteligentes, e não simplesmente maiores.

Pergunte-se: existe alguma aposta assimétrica que estou deixando passar?

No fim das contas

Naturalmente, ninguém precisa incorporar todas essas formas de pensar de uma só vez. Basta escolher uma delas, observá-la na prática e permitir que ela influencie a maneira de analisar os desafios do cotidiano. Com o tempo, as cinco perguntas deixam de ser decoradas e passam a surgir espontaneamente:

  • Qual é o sistema por trás desse problema?
  • Onde está a alavancagem?
  • O que aumenta minhas chances de sucesso?
  • Que incentivos estão moldando esse comportamento?
  • Existe alguma aposta assimétrica que estou deixando passar?

É nesse momento que o conhecimento deixa de ser apenas teoria. Os conceitos deixam de ocupar espaço na memória e passam a fazer parte da forma como interpretamos a realidade.

Talvez a diferença entre quem evolui continuamente e quem permanece estagnado não esteja na quantidade de respostas que acumula, mas na qualidade das perguntas que faz. Perguntas moldam decisões. Decisões moldam comportamentos. E comportamentos, repetidos ao longo do tempo, constroem resultados.

Se este texto despertou uma nova pergunta em você, então ele já cumpriu seu propósito.

E eu termino deixando uma para sua reflexão:

Qual pergunta você deveria estar fazendo hoje, mas ainda não fez?

Compartilhe sua resposta nos comentários. Quem sabe ela também não ajude alguém a enxergar um problema por uma perspectiva completamente diferente?